Tem gente que entra na internet, faz sucesso por um tempo e depois some do radar. Karen Bachini não é desse time. Ela viu o YouTube nascer como plataforma de beleza no Brasil, ajudou a escrever esse capítulo com cabelos coloridos e uma sinceridade que incomodava tanto quanto conquistava, e mais de quinze anos depois continua sendo um dos nomes mais citados quando o assunto é maquiagem no país.
O curioso é entender como alguém se sustenta tanto tempo no topo de um mercado que troca de queridinha praticamente a cada temporada. A resposta passa por escolhas ousadas, uma marca própria de sucesso e uma habilidade rara de transformar honestidade em audiência. Mas também passa por tropeços, alguns bem grandes.
A seguir, você vai conhecer de perto essa trajetória de altos e baixos, entender o que a tornou tão respeitada e descobrir os bastidores das polêmicas que quase abalaram tudo o que ela construiu.
Quem é Karen Bachini?
Karen Bachini nasceu em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 1988, e hoje chama São Paulo de casa. Na vida pessoal, ela é bem aberta sobre quem é: assume publicamente que é intersexo e tem gostos que fogem do estereótipo de influenciadora de beleza, curte rock, adora videogame, é fã de leitura e ainda se derrete pelos pugs que cria.
Antes de virar referência na internet, ela ganhava a vida como body piercer, e foi justamente esse trabalho que a aproximou de noções de biossegurança, conhecimento que acabaria sendo útil mais adiante em outra área da sua vida profissional.
A trajetória digital começou em 2009, quando passou a gravar vídeos sobre maquiagem, e ganhou força de verdade em 2011, com a criação do canal no YouTube e do blog E aí, Beleza?. De criadora de conteúdo, ela cresceu e virou empresária: em 2023, lançou sua própria marca de cosméticos, a Karen Bachini Beauty.
E como quem não para de se reinventar, recentemente ela decidiu encarar um novo desafio, entrando no universo da tatuagem como artista iniciante.
Da maquiagem alternativa ao império da beleza
Tudo começou em 2009, quando ela passou a postar vídeos ensinando truques de maquiagem, sempre com uma pegada alternativa que destoava do padrão da época.
Dois anos depois, essa presença ganhou corpo com a chegada do canal no YouTube e do blog E aí, Beleza?, período em que os cabelos coloridos e as transformações visuais radicais viraram sua assinatura, conquistando um público fiel que só cresceu com o tempo até chegar aos milhões de seguidores.
Com o passar dos anos, o conteúdo amadureceu. As dicas soltas deram lugar a análises mais aprofundadas e resenhas sem papas na língua, nas quais ela não hesitava em apontar falhas mesmo em produtos de grandes marcas.
Essa honestidade brutal, especialmente nos testes de durabilidade e desempenho, virou seu principal diferencial e ajudou a construir sua imagem no meio, rendendo parcerias importantes com nomes como Jequiti e Avon antes de ela expandir para outras frentes profissionais.
Foi natural, então, que toda essa bagagem desembocasse em um projeto próprio. Em 2023, saiu do papel a Karen Bachini Beauty, fruto de uma parceria com a MBOOM, trazendo itens como paletas de sombras e batons líquidos pensados para valorizar a autoexpressão e a diversidade.
O “sincericídio” que virou marca registrada
Se o lançamento da marca própria mostrou o lado empresária de Karen, foi outra característica que construiu a confiança: a fama de não medir palavras. Esse jeito direto de falar, apelidado pelos internautas de “sincericídio”, virou a marca do canal.
Em vez de recorrer aos elogios fáceis tão comuns entre criadores que dependem de parcerias, ela optou por um caminho mais espinhoso, mas também mais valioso, o da análise crua e técnica, o que a diferenciou num mercado onde nem sempre a opinião sincera tem espaço garantido.
Esse posicionamento ficou ainda mais evidente em um dos quadros que a consagrou: comparar maquiagens nacionais e importadas colocando lado a lado promessas de embalagem e resultado real. É esse tipo de conteúdo que faz o público confiar cegamente nas indicações dela, enxergando em cada vídeo um verdadeiro guia para não cair em compras mal pensadas.
Afinal, pouco importa se o produto custa caro ou carrega um nome badalado, se a performance não convence, ela vai dizer.
O problema é que essa mesma verdade que fideliza seguidores também rende dor de cabeça. Não faltam episódios de bate boca com marcas e outros nomes da internet, sendo um dos mais comentados o embate com produtos assinados por Virginia Fonseca, que levantou uma onda de discussões acaloradas nas redes.
É o preço de manter a coerência, cada crítica reforça sua imagem de autenticidade perante o público, mas também a joga de cabeça em polêmicas sobre até onde vai o direito de criticar dentro do universo da beleza.
Polêmicas de Karen Bachini que balançaram a internet
Trabalho de modelo x trabalhador rural
Uma das polêmicas mais comentadas envolvendo Karen Bachini veio de uma entrevista ao podcast Divã da Diva, quando ela comparou o desgaste do trabalho de modelo ao de trabalhadores rurais, dizendo que quem trabalha no campo tem horário fixo e “vai para casa feliz”, enquanto o universo da moda vive sob pressão constante sobre o corpo.
A repercussão negativa levou a influenciadora a se desculpar publicamente, reconhecendo que a comparação foi “muito infeliz”.
Denúncias trabalhistas
Poucos dias depois da repercussão sobre essa fala, surgiu uma denúncia mais grave. A ex-funcionária Priscila Danielle usou uma live no Instagram para acusar Karen de assédio moral durante o período em que trabalhou para ela, relatando situações constrangedoras e exposição indevida em grupos internos de trabalho. Segundo Priscila, o caso teria virado processo sob sigilo de justiça.
Falas elitistas
Em um vídeo de desculpas de mais de 30 minutos, Karen resgatou episódios antigos que voltaram a incomodar o público. Um deles foi o momento em que romantizou a pobreza ao relatar uma viagem a Bali, descrevendo moradores locais como pessoas felizes mesmo sem praticamente nada. O discurso soou elitista, e ela mesma reconheceu depois que se tratava de uma visão distorcida, típica de quem fala a partir de uma posição de privilégio.
Hate Selena Gomez
Ainda no mesmo vídeo, outro caso relembrado foi o comentário duro feito contra a cantora Selena Gomez, quando Karen desejou que ela sofresse hate por causa de uma linha de maquiagem que não agradou. A fala foi reconhecida como um dos maiores erros de sua trajetória, já que o produto criticado tinha propósito inclusivo e parte da renda revertida para causas sociais.
Polêmicas na tatuagem e acusações de plágio
Em 2024, a virada de Karen para o universo da tatuagem também trouxe atritos. Profissionais do setor criticaram a cobrança de valores considerados altos para um trabalho de aprendiz, além de acusações de plágio por usar referências de outros artistas sem autorização prévia e questionamentos sobre o uso de inteligência artificial em desenhos de sua linha de papelaria.
Em resposta, ela defendeu que adquire direitos de uso comercial para suas inspirações, estuda biossegurança e destina parte da renda das tatuagens a projetos que apoiam tatuadoras iniciantes.
Resenha da WePink, marca de Virginia Fonseca
Por fim, uma das polêmicas mais marcantes foi quando Karen resenhou a base e os batons da WePink, marca de Virginia Fonseca, sem meias palavras. Ela apontou falhas na performance dos produtos e afirmou que o resultado final “não ficou belo”.
O episódio, com certeza, viralizou e reforçou sua fama de avaliadora técnica disposta a confrontar até os lançamentos mais badalados de celebridades, mesmo sabendo que isso poderia gerar atrito com outras figuras públicas do mercado.
Como a Karen Bachini lidou com os cancelamentos?
Depois de tantas polêmicas, uma pergunta fica no ar: como Karen consegue se manter relevante mesmo passando por tantas crises? A resposta está em uma estratégia bem definida, ela raramente foge do confronto.
Costuma usar o X, antigo Twitter, para dar explicações técnicas e detalhadas sobre cada acusação, seja justificando o valor cobrado nas tatuagens como parte de um projeto que reverte lucro para tatuadoras iniciantes, seja comprovando a legalidade de suas artes diante de suspeitas de plágio.
Ao mesmo tempo, ela investe pesado em fortalecer seu lado empresária, colocando a Karen Bachini Beauty no centro do discurso e usando duas décadas de experiência em cosméticos para reposicionar a própria imagem, deixando de ser vista apenas como quem critica produtos alheios para se firmar como quem cria soluções no mercado.
E o que se percebe é que essa fórmula funciona. Mesmo com os episódios que geraram desconforto e debates acalorados, os números da influenciadora seguem firmes, com 2 milhões de inscritos no YouTube e 1,3 milhão de seguidores no Instagram.
Isso mostra que, para boa parte do público de beleza, a confiança construída ao longo de anos e a fama de dizer a verdade sem rodeios pesam mais do que qualquer polêmica passageira, garantindo que Karen continue sendo vista como uma referência sólida no setor, mesmo com todos os tropeços pelo caminho.
Conclusão: e aí, você acompanha a Karen?
Toda essa trajetória mostra como uma criadora comum se transformou em referência absoluta para quem consome conteúdo de beleza no Brasil. Desde 2009, ela deixou de ser apenas mais um rosto entre tanto, e essa credibilidade foi tão bem construída que a levou de crítica ferrenha a empresária de sucesso à frente da própria marca.
Mas talvez o mais interessante nessa história seja justamente perceber que, por trás de todo o sucesso, existe uma pessoa que também tropeça e aprende com isso na frente de milhões. As polêmicas recentes envolvendo tatuagem, seja pelos preços cobrados como aprendiz ou pelas questões sobre autoria das artes, mostram que ninguém está imune a deslizes ao se aventurar em terrenos novos.
Ainda assim, o fato de reconhecer publicamente os próprios erros, buscar respaldo legal para as escolhas feitas e direcionar parte do lucro para causas que apoiam outras mulheres revela alguém disposta a evoluir abertamente, com acertos e falhas expostos, o que talvez explique por que tanta gente continua acompanhando de perto cada novo capítulo dessa jornada.
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