Matrescência: a adolescência após a maternidade

Matrescência: entenda o que é, por que acontece e como esse processo transforma profundamente a mulher após a maternidade.

Você já sentiu que, depois da maternidade, algo em você mudou para sempre, mas não soube exatamente explicar o quê? Esse turbilhão de transformações físicas, emocionais e identitárias tem nome: matrescência.

Muito mais do que uma simples fase, ela marca uma profunda reconstrução interna, que impacta a forma como a mulher se percebe, se relaciona e enxerga o mundo.

Vamos saber mais sobre essa fase tão sensível da vida de muitas mulheres? Vem com a gente!

O que significa o termo matrescência?

A matrescência é o nome dado à fase em que a mulher passa a se reconhecer como mãe, atravessando uma série de mudanças profundas no corpo, nas emoções, na mente e na forma de enxergar a própria identidade.

Esse período traz intensas transformações, que vai muito além das alterações físicas da gestação e do pós-parto, pois envolve também sentimentos ambíguos, descobertas, inseguranças, amadurecimento e uma verdadeira reconstrução interna.

O termo foi criado pela antropóloga Dana Raphael, em 1970, com a intenção de mostrar que a transição para a maternidade é um processo, e não algo simplório como um evento pontual.

Assim como acontece na adolescência, a mulher passa por uma fase de adaptação, em que precisa aprender novos papéis, ressignificar prioridades e lidar com uma identidade em constante transformação.

Afinal, nada acontece de forma imediata: ser mãe também se aprende no caminho. Concorda?

Ao estudar diferentes culturas, Raphael percebeu como o nível de apoio oferecido às mães varia bastante ao redor do mundo. Em sociedades onde existe uma rede de acolhimento mais forte, seja da família, da comunidade ou do sistema de saúde, essa transição tende a ser mais leve.

Em contraposição, em contextos onde a mulher enfrenta esse momento quase sozinha, os desafios emocionais e psicológicos costumam ser muito maiores.

Além das mudanças físicas e hormonais, a matrescência impacta diretamente a autoestima, a rotina, os relacionamentos e a forma como a mulher se vê no mundo. Por isso, é um verdadeiro processo de reconstrução, que merece empatia, informação e cuidado.

Por que a matrescência é comparada à adolescência?

A comparação faz bastante sentido quando olhamos com mais atenção para o que acontece nessas duas fases da vida.

A partir das observações da antropóloga Dana Raphael, percebeu-se que tanto a adolescência quanto a matrescência são períodos marcados por transformações intensas, que envolvem mudanças hormonais, corporais, emocionais e profundas revisões de identidade.

Assim como na adolescência, a mulher em matrescência pode vivenciar inseguranças, oscilações de humor, dúvidas constantes e uma sensação de estar se redescobrindo. É como se tudo precisasse ser reorganizado: a forma de se ver, de se relacionar, de ocupar o próprio espaço e até de planejar o futuro.

Esse processo não se limita às mudanças físicas do pós-parto. Ele alcança também a mente, as emoções e as relações, afetando vínculos familiares, parcerias e a dinâmica social como um todo.

Ao entender a matrescência dessa forma, fica mais fácil acolher sentimentos ambivalentes, como amor, exaustão, alegria, medo e culpa, sem rotulá-los como problemas ou doenças.

Afinal, sentir tudo isso faz parte de uma transição tão profunda quanto humana.

Quais são os principais desafios da matrescência?

Entrar na maternidade é como ser lançada em um território completamente novo, sem mapa, sem manual e, muitas vezes, sem rede de apoio suficiente.

As mudanças chegam todas de uma vez, no corpo, na rotina, nas emoções e na forma de se enxergar, e isso pode gerar uma verdadeira montanha-russa interna.

Não à toa, como a gente já viu, essa fase passou a ser comparada à adolescência: tudo parece intenso, confuso e, por vezes, avassalador.

Um dos desafios mais delicados desse processo é a sensação de perder quem se era antes. Muitas mulheres vivem um luto silencioso pelo corpo de antes da gestação, pela liberdade, pelos antigos papéis e pela própria autonomia.

Somam-se a isso as expectativas irreais em torno da “mãe perfeita”. A sociedade costuma exigir equilíbrio emocional, maturidade instantânea, dedicação absoluta e felicidade constante, ignorando completamente o caos real dessa transição.

O resultado? Culpa, cobrança excessiva, comparação e uma sensação persistente de não estar fazendo o suficiente.

As alterações hormonais intensas, o cansaço extremo, a privação de sono e a redefinição das relações sociais e conjugais também pesam bastante.

Afinal, mudam as dinâmicas do casal, os vínculos familiares, as amizades e até a forma de ocupar espaços sociais. Quando tudo isso não é acolhido com empatia e compreensão, o risco de ansiedade, esgotamento emocional e depressão aumenta consideravelmente.

Como lidar com a carga mental nesse período?

Em meio a tantas mudanças, é comum sentir que a mente nunca desliga. Pensamentos, preocupações, listas e inseguranças se acumulam, o que acaba criando uma sensação constante de sobrecarga.

A boa notícia é que existem estratégias que podem ajudar a aliviar esse peso no dia a dia, sem a cobrança de dar conta de tudo perfeitamente.

Um bom ponto de partida é o autocuidado possível, e não o idealizado. Ou seja, não precisa ser nada grandioso, você pode começar reservando de 10 a 20 minutos por dia já faz diferença. Pode ser um banho mais demorado, alguns minutos de respiração consciente, alongamentos leves ou até uma caminhada tranquila com o bebê no carrinho.

Outro pilar fundamental é a rede de apoio. Dividir tarefas não é sinal de fraqueza, mas de inteligência emocional. Viu? É importante ter isso internalizado.

Pedir ajuda ao parceiro, familiares ou pessoas próximas, especificando o que você precisa, diminui a sobrecarga e evita frustrações. Além disso, participar de grupos de mães, presenciais ou online, cria espaços seguros para trocar experiências reais, desabafar e perceber que você não está sozinha nessa jornada.

E, talvez o mais importante, validar os próprios sentimentos. Emoções ambivalentes como raiva, tristeza, cansaço extremo, culpa ou até alívio fazem parte desse processo e não definem o amor por um filho.

Aceitá-las sem autocrítica é muito importante para reconstruir a autoestima e fortalecer a saúde emocional. A prática diária da autocompaixão, falar consigo mesma com gentileza, acolher limites e respeitar o próprio ritmo, transforma profundamente a forma de atravessar essa fase.

Quanto tempo dura o processo de matrescência?

Agora, se você está se perguntando se a matrescência tem data para começar e terminar, a resposta mais honesta é: não. Esse é um processo vivo, em constante movimento, que acompanha as transformações da maternidade ao longo do tempo.

Para algumas mulheres, essa fase pode durar meses; para outras, pode se estender por anos. E isso é absolutamente normal.

A matrescência não se limita ao puerpério, que costuma durar cerca de 40 dias e está mais ligado às mudanças físicas do pós-parto, já que envolve algo muito mais profundo: a construção contínua da identidade materna.

De modo geral, isso significa que a matrescência é um rito de passagem biossocial, semelhante ao que acontece na adolescência. Envolve adaptações hormonais, emocionais e sociais que se refletem no dia a dia, na organização da rotina, na forma de cuidar, nas prioridades e nos relacionamentos.

A cada nova fase do desenvolvimento do filho, novas transformações também acontecem na mãe.

Por isso, diferente do puerpério, mais focado na recuperação física, a matrescência não tem um ponto final claro. Ela atravessa o tempo, acompanhando as mudanças constantes que a maternidade traz, e se reinventa junto com elas.

Como buscar apoio durante a matrescência?

Diante de tudo que a gente viu até aqui, uma coisa é certa: ninguém deveria atravessar a matrescência sozinha.

Sem dúvidas, o apoio faz toda a diferença para lidar melhor com as transformações emocionais e físicas, reduzir a sensação de isolamento e aliviar a sobrecarga mental que costuma acompanhar esse período.

Buscar apoio profissional pode ser um passo essencial. Psicólogos podem ajudar a elaborar medos, lutos, inseguranças e ansiedades típicas dessa fase.

Em alguns casos, é importante destacar que o acompanhamento psiquiátrico também pode ser indicado, principalmente quando há sinais persistentes de ansiedade, tristeza profunda ou esgotamento emocional.

No dia a dia, o suporte de enfermeiras de puerpério, consultoras em amamentação ou doulas pode trazer alívio. Além de orientar nos cuidados com o bebê, essas profissionais oferecem escuta, acolhimento e validação, ajudando a normalizar os desafios e a fortalecer a confiança da mãe.

Participar de grupos e rodas de conversa, presenciais ou online, também pode ser extremamente útil. Compartilhar experiências reais, ouvir outras histórias e perceber que as dificuldades são comuns cria um senso de pertencimento e reduz a solidão.

Muitas vezes, só o fato de ser ouvida sem julgamentos já transforma a vivência dessa fase.

Por fim, é fundamental abrir espaço para diálogos honestos dentro da relação conjugal. Conversar com o parceiro sobre sentimentos, cansaço, expectativas e divisão de tarefas, usando uma comunicação clara, favorece acordos mais justos, diminui conflitos e fortalece a parceria nesse momento tão sensível.

Outras postagens

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • Rating